domingo, 6 de fevereiro de 2011

Calipso .

as vezes eu me sinto tão facilmente manipulada quanto um barco à deriva, e as vezes eu me sinto tão vazia e inabitável quanto um pedaço de madeira abandonado em lugar qualquer do oceano, sempre guardando na pele as memórias de que eu já fui algo melhor .
mas nesse meio tempo eu estou consciente, porque há uma parte de mim que não se entrega, nunca se entrega totalmente, há uma parte de mim que está acordada aqui dentro, vendo a vida passar através da densa bruma do mar, através do nevoeiro que me impede de ver o que há além da escuridão que não parece ter fim .
eu estive boiando, mas isso não durou muito tempo, pois logo veio a tempestade, avassaladora e destemida, e me afogou num oceano de lágrimas onde cada soluço tomava o lugar de minha respiração, onde eu cheguei a pensar que sucumbiria ao mar e me fundiria a ele, eu cheguei a pensar que seria o fim, me entreguei à correnteza, porque haviam água, areia, pedras e todo tipo de coisas que sempre machucam em excesso .
eu não sabia porque eu ainda tremia, não sabia porque ainda doía afinal eu já havia desistido de lutar, e eu esperava que meu corpo também desistisse .
mas então após meses na escuridão eu abri meus olhos e percebi que não havia mais bruma, havia apenas o céu infinitamente azul, e a areia não mais me machucava, e então eu tentei me levantar, mas eu já não estava sozinha, havia uma garota, a mais bela garota que eu poderia imaginar e ela sorriu pra mim, mas em seus olhos havia uma solidão tão profunda e dolorosa que eu tive vontade de correr, eu entrei em pânico .
então uma lágrima rolou por sua face, e eu me levantei abruptamente, ela me seguiu até a praia, onde havia uma pequena jangada à espera, ela não fez sinal para que eu prosseguisse, também não me pediu pra ficar, apenas segurou minha mão por um segundo antes que eu puxasse e novamente entrasse em pânico.
eu subi na jangada, como se a garota fosse nociva, ou contagiosa, eu nem ao menos fui capaz de perguntar nada a ela, simplesmente subi e quando olhei pra trás vi seus olhos azuis hesitarem à beira das lágrimas, e então eu fechei os meus por um segundo e percebi que eu estava errada, enganada, que eu era um idiota .
eu abri os olhos mas não havia nada que eu pudesse fazer porque em menos de um segundo a ilha estava a milhas e milhas de distância, e então eu lutei contra a correnteza, eu remei até meus braços parecerem pesos mortos, mas em pouco tempo a ilha se perdeu de vista .
e eu voltei a ser um pedaço de madeira flutuando no mar, tão longe de tudo, tão absolutamente vazia que até as tempestades se foram, nunca mais encontrei a ilha .
porque ninguém jamais encontra a ilha de Calipso duas vezes .
e agora eu vago por aí arrependida das palavras que eu não disse, do esforço que eu não fiz pra me manter segura e amada .

Quando encontrar a sua ilha de Calipso, pense duas vezes antes de subir na jangada, não espere reconforto dos mares que só te afogam e te machucam .

Um comentário:

  1. você com certeza é minha escritora favorita!!! não vejo a hora das suas histórias terem finais felizes!!!
    Bjos!!!

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